Quando me olhei no espelho, senti
como se fosse outra pessoa ali, por um momento fixei nos meus olhos e
eu parecia afundar dentro deles, faltava ar, faltava chão, tive tontura
e sensação de que estava sem força nenhuma para continuar sobre meus
pés. Não sei quem estava ali do outro lado, mas definitivamente não era
eu, pois havia descoberto um ponto fraco do meu precipício e então
parecia pisar em cima tão delicadamente que doía sem machucar, entende?
E deixava-me presa dentro dos meus próprios olhos.
Sufoquei. Pensei em pedir ajuda, mas ajuda a quem? Fiquei inerte ali. Se afastasse um pouco da pia e do espelho, simplesmente cairia sem vértebras e em prantos; Acabei afastando e despedaçando então, reguei o único ser vivo perdido no meu precipício, uma flor, a mais linda já vista. Intocável.
É, ser vivo! E pensar que tudo morria por lá naquela paisagem cinza,
pensar que nunca veria algo assim, pensar que provavelmente se eu a
tocar, ela morrerá; Tem sido assim... Desde então tem sido impossível
tocá-la, continuo quebrada e a regando com a chuva dos olhos.
Em
meio dessas gigantes desordens e atrasos penso se é aqui que devo
continuar. Quero dizer, o que há de útil em um lugar tão morto pra um
lírio tão bonito? Uma vez dentro daquele lugar, ou se perdem, ou apenas
morrem... Raramente se encontram por lá, raramente vivem por muito
tempo; eu, por exemplo, já morri tantas vezes; às vezes sinto que devo tirar essa flor dali, faz tanto o coração doer por inteiro, em pedaços e no meio. Às vezes é preciso morrer e salvar outra vida.
Depois de tantos silêncios,
resolvi voltar a conversar comigo, ainda que mentalmente. Muitas vezes fico
assim, recostada em mim, pensamento longe, coração andando devagar e analisando
cada cenário que passa em câmera lenta, a vida em preto e branco. E agora tudo
toma cor tão derrepente. Não foi difícil nem tenso, foi diferente.
Meu pensamento fervilha. O coração fica a mil. As idéias
dão saltos mortais. As emoções giram no sentido horário. Será que vou dar
conta? O que fazer quando você tem tudo nas mãos? O que fazer quando seus
sonhos viram verdade? Você acha o amor da sua vida, você e ela se juntam, constituem
uma família. Nós somos uma família. Uma família. Nós, o Bob, nossos cachorros, nossas
historias, nossos sentimentos, não sentimentos, amor. E todas as nossas outras
coisas, nossas caixas, nossos restos, nossos começos, meios e finais. Nós e
nossas manias, nossos sucessos, nossos fracassos, nossos defeitos que ficam na
fronha, nossas qualidades que fazem os olhos ter mais vida. Hoje, aqui, agora,
na hora.
Eu sofri. Meu Deus, como eu sofri com amores errados,
ilusões, migalhas, coisas que achava que eram e nunca foram, tentativas
enlouquecidas de te esquecer, vontades desesperadas. Eu posso dizer para você com todas as
letras do alfabeto eu-sofri-muito. Hoje, vejo que sofri me procurando. É porque
hoje percebo que a gente só encontra o amor depois de se achar. Ou pelo menos
de tentar se encontrar. Eu estava em paz, uma paz boa, uma vontade de ficar
comigo, de ser minha amiga, de fazer dar certo essa relação difícil que existe
entre nós e nós mesmos, de cuidar bem de mim, de tomar conta da minha vida do
jeito certo. Então, ela apareceu. Ela (re)apareceu na minha vida de mansinho.
Eu apareci na vida dela devagarzinho. Nós aparecemos na vida uma da outra, sem
pedir nada, sem cobrar nada, sem dizer nada. Depois, as palavras. Elas, que me
seduzem. Elas, que me envolvem. Elas, que me aproximam. Foram as palavras que
me aproximaram dela. E foram elas que me conduziram até o amor da minha vida.
Entre uma palavra e outra, uma inquietação. Entre uma inquietação e outra, a
curiosidade. Entre uma curiosidade e outra, um medo. Será? Entre um será e
outro, um relâmpago chamado coragem. Fui. Ela veio. Nós fomos. Daquele dia em
diante, não ficamos um dia sequer sem nos falarmos, seja por telefone, e-mail,
mensagem, telepatia. Entre uma conversa e outra, um sentimento. Entre um
sentimento e outro, o amor e, com ele, a definição. Sim. Sim. Sins.
O amor é mesmo maluco. Ele vem quando estamos
distraídos. Ele chega quando menos precisamos dele para nos mostrar o quanto
somos mais felizes junto com alguém. Já vivi situações em que ele podia ter ido
embora. Já senti o medo de perder tudo um dia. Já fiquei me perguntando como
tudo isso seria. Vi que, independente de tudo e acima de qualquer coisa, o amor
é um sentimento que vive em mim, que caminha ao meu lado, que me acompanha
aonde quer que eu vá. Não posso me perder dele, tampouco abrir os dedos e
deixar que ele se vá. É por isso que eu acho que a gente deve cuidar de quem
ama como se fosse a primeira vez. Para amar, tem que ser inteiro. Para amar, a
gente dispensa a matemática, por mais que um mais um seja dois. Para amar, o
bom português basta. É só abrir o coração e boca e dizer eu te amo.