quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Nada

   Uma dose amarga de realidade para lembrar que o mundo não é feito de valsa. Vê-se então que o amor nada mais é que a própria solidão. Ama-se, porém. Não vê, não toca, não sente, pensa: imagem do que não existe.

– Amor não existe.
– Eu sei.

   Saber, ninguém sabe, talvez. Mas é fato resultante consumado do fracasso. Corações partidos, que em partes não se partem na verdade, são apenas partes do que acreditava ser verdade. Mas de verdade é mesmo, de mentira dói menos. Engana a si mesmo sem saber o certo e o errado, supõe-se que.  Constrói fortaleza em volta do nada, coração só serve para bater, só protege se for de bala.

 Meu dia cansativo, cheio de números e mais números. E eu escuto teu nome. Nem era você, mas na minha mente era. Parece que todo mundo resolveu se chamar você, parece que todo mundo resolveu ser você na minha mente. Parece que não enxergo mais. Queria que por um momento, você sentisse, me sentisse em você, com você, pra você. É assim que eu me sinto.

   Eu me sinto fraca, antes, durante e depois. Tento me conter em sorrisos do teu rosto, e nas cores dos teus olhos. São tantas elas, você nem sabe. Se meus óculos fizessem eu realmente enxergar o que eu não quero ver... Na verdade eu já vejo, só finjo que não, pois assim é melhor pra mim. Pensar que o que me faz bem ainda é meu, mesmo que nunca tenha sido.
  

   Chora, sufoca e mata. Não há nada como um recomeço de nada. Não foi nada, não tem nada e continuará nada. O ser humano nasce sozinho para morrer sozinho, teus pertences e amores não vão para o caixão. Inútil seria se assim não fosse. Um agrado a quem vê dois sorrisos a brilhar antes do sol se pôr, e o céu vermelho quase azul escurecendo para as estrelas. Elas que já morreram.Quantas vezes podemos amar? Quantas vezes podemos morrer?

domingo, 22 de maio de 2011

À flor de qualquer coisa



  Viver não é uma palavra, viver é quase nada. Cepticismo. “Só acredito vendo”, pouca coisa se vê, muita coisa se sente. Sente-se sem querer, mas ainda querendo. Mas é assim mesmo, uma pena pra quem carrega um mundo é tão pesada que parece outro planeta. Cria-se sem querer também, pra fugir talvez, uma dimensão paralela que ninguém mais seria capaz de ver. É como se por dentro fosse um quarto escuro com uma cama macia, a vontade é de ficar lá... Ficar lá até tudo sumir. Perde-se dentro de si.

   Palavras, tão poucas palavras. Tantas formas para emitir informações. Mas o que importa? Palavras, tão poucas essas, correndo ao canto de cada página, ao canto de cada ouvido. Hora entram e permanecem, outra hora pouco importam. Importar (im-por-tar): valer, ser útil ou proveitoso, convir; ser importante; atingir, dizer respeito, afetar; fazer caso, dar importância, interessar-se por. Pouca coisa importa quando não se tem nada a perder, excluindo a si mesmo, assim mesmo. Mesmo, do tipo mesmo-mesmo.

   
  O tempo passa, tudo passa, eu inclusive. O pesar não, esse permanece, por si e por outros. Mas isso também não importa. Das poucas coisas, exclui-se essa também. Num ato de egoísmo profundo, no âmago de seu ser. Sangra como flor em ponta de arma branca, mas morre e vive outra vez. Viver não é uma palavra, viver é quase nada, mas entende-se como quer.